"Porque andamos por fé e não pelo que vemos." — 2 Coríntios 5:7
Quando pensamos nos grandes heróis de As Crônicas de Nárnia, nomes como Pedro, Lúcia, Edmundo e Eustáquio costumam vir à mente. Poucos lembram de Brejeiro, o paulama de aparência desajeitada, sempre preocupado e conhecido por esperar que as coisas dessem errado. No entanto, foi justamente esse personagem improvável que protagonizou uma das maiores demonstrações de fé de toda a obra de C. S. Lewis.
Em A Cadeira de Prata, Brejeiro acompanha Jill e Eustáquio em uma missão dada por Aslam: encontrar o príncipe Rilian, desaparecido há muitos anos. Depois de enfrentarem inúmeros perigos, os três chegam ao reino subterrâneo, onde são recebidos pela misteriosa Feiticeira Verde. Sabendo que dificilmente venceria aqueles viajantes pela força, ela escolhe uma estratégia muito mais perigosa: fazer com que eles duvidassem da verdade.
Enquanto um fogo crepita lentamente e um perfume encantado toma conta da sala, a Feiticeira começa a falar de forma calma e convincente. Ela afirma que Nárnia nunca existiu, que Aslam era apenas fruto da imaginação e que o Sol, o céu e o mundo da superfície não passavam de histórias inventadas. Aos poucos, Jill e Eustáquio começam a vacilar. O encanto não prende seus corpos, mas suas mentes, levando-os a esquecer aquilo que sempre souberam ser verdadeiro.
Lewis escreveu essa cena para mostrar uma realidade que a Bíblia apresenta desde o princípio: Satanás não precisa criar uma verdade melhor do que a de Deus; basta fazer as pessoas duvidarem da verdade que já conhecem. Foi assim no Jardim do Éden, quando a serpente perguntou a Eva: "Foi assim que Deus disse?" (Gênesis 3:1). A estratégia continua a mesma. O inimigo tenta convencer as pessoas de que Deus não é confiável, que Sua Palavra está ultrapassada e que a verdade pode ser moldada conforme os desejos de cada um.
Quando tudo parecia perdido, Brejeiro faz algo inesperado. Percebendo que o fogo encantado alimentava o feitiço da Feiticeira, ele coloca deliberadamente a pata sobre as brasas. A dor rompe o encanto e devolve clareza aos seus pensamentos. Naquele momento, ele faz uma das declarações mais marcantes de toda a série. Mesmo que Nárnia, Aslam e o mundo de cima fossem apenas uma história — o que ele sabia não ser verdade — ainda assim preferiria viver como um narniano do que aceitar o reino da Feiticeira.
Essa fala revela uma fé extraordinária. Brejeiro não escolhe acreditar porque tudo faz sentido diante dos seus olhos; ele permanece firme porque conhece o caráter de Aslam. Sua confiança não está baseada nas circunstâncias, mas na verdade que experimentou. É exatamente isso que o apóstolo Paulo ensina quando escreve: "Porque andamos por fé e não pelo que vemos." (2 Coríntios 5:7).
Talvez essa seja uma das mensagens mais atuais de As Crônicas de Nárnia. Vivemos em um tempo em que inúmeras vozes tentam convencer as pessoas de que Deus é apenas uma ideia, que a Bíblia perdeu sua relevância ou que cada um pode criar sua própria verdade. Em meio a tantas opiniões, torna-se cada vez mais fácil esquecer das promessas de Deus e permitir que as dúvidas ocupem o lugar da fé.
O apóstolo Pedro nos encoraja a permanecer firmes, dizendo: "Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." (2 Pedro 3:18). Quanto mais conhecemos a Cristo, menos espaço damos às mentiras que tentam nos afastar dEle. A fé não nasce da ausência de dúvidas, mas da decisão de confiar na Palavra de Deus acima de qualquer outra voz.
C. S. Lewis queria que seus leitores percebessem que o maior perigo não era ficar preso no mundo subterrâneo, mas esquecer Nárnia. Da mesma forma, o maior risco para o cristão não é enfrentar dificuldades, perseguições ou perguntas difíceis; é permitir que o coração se acostume tanto com este mundo que deixe de desejar o Reino de Deus.
Brejeiro nos lembra de que vale a pena permanecer fiel, mesmo quando isso exige coragem, renúncia e até sofrimento. Ele preferiu sentir a dor da verdade a viver no conforto da mentira. Essa continua sendo a escolha de todo discípulo de Jesus.
Que jamais nos esqueçamos de quem é o nosso verdadeiro Rei e do Reino ao qual realmente pertencemos. Afinal, quem conhece Aslam jamais deveria permitir que o mundo o convencesse de que Nárnia nunca existiu.